Por que o passado parece mais feliz?
Diante de uma apresentação musical dos filhos de Gugu e do Faustão, na TV no último domingo, a reportagem da TRIBUNA quis saber: por que sentimos falta de um tempo que não volta mais
Por que o passado parece mais feliz?
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Por: Gabriel Ferreira Data da Publicação: 14 de Outubro de 2023FacebookTwitterInstagram
Foto: Reprodução/TV Globo

No último domingo (8), o Brasil se emocionou com as apresentações de João Guilherme Silva e de João Augusto Liberato, herdeiros de Faustão e Gugu Liberato (1959-2019), respectivamente, no quadro “Lip Sync” do Domingão com Huck, atração comandada por Luciano Huck nas noites de domingo na TV Globo.

Nas redes sociais, a apresentação chamou a atenção do público e ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter/X. Houve internautas afirmando que o domingo voltou a ter uma “atração de verdade”, referenciando a guerra de audiência dos anos 1990, onde ambos os apresentadores disputavam pontos de audiência acirradamente.

João Augusto Liberato se apresentando ao lado da banda KLB, que tinha presença constante no programa do seu pai, o "Domingo Legal" - Foto: Reprodução/TV Globo

Diante do saudosismo por parte do público, A TRIBUNA quis saber: por que as pessoas sentem falta de um tempo que não volta mais?

Para o jornalista especializado em TV, Eduardo Secco, também conhecido Duh Secco, o passado aparentava ser um lugar mais aconchegante e isso pode ter impactado no saudosismo das pessoas, principalmente para quem assiste televisão e sente falta dos programas dominicais apresentados entre os anos 1990 e 2000.

A guerra de audiência entre Gugu e Faustão era um duelo para ver quem oferecia o melhor entretenimento ao público. Na imagem, o SBT produziu uma chamada intitulada de "Domingo Especial" onde mostra a vitória da emissora sobre a Globo em termos de audiência - Foto: Reprodução/YouTube

“Acredito que, no geral, o espectador sente falta de quem era, das pessoas com quem convivia, dos lugares que frequentava. O passado parece sempre um lugar mais tranquilo, mais aconchegante. Isso pode explicar o apego não só a Gugu e Faustão, mas às novelas de antigamente, aos programas infantis”, ressaltou o jornalista, que escreve sobre televisão diariamente em seu portal Duh Secco.

Duh afirma ainda que tanto Gugu quanto Faustão são símbolos da cultura brasileira, de uma forma geral. “No caso de Gugu e Faustão, a longa trajetória de ambos, o tempo que passaram na TV, especialmente aos domingos, dia quase sempre de descanso no sofá da sala, esse apego é ainda maior. Duas figuras que contribuíram muito para a TV brasileira, para a música – o Domingão do Faustão e o Domingo Legal serviram de palco para inúmeros lançamentos, espetáculos”, completou.

Com passagens pelo canal Viva e pelos portais RD1 e TV História, atualmente Duh Secco conta com o seu próprio site, onde escreve diariamente sobre os bastidores da Televisão Brasileira - Foto: Divulgação

“Com a pandemia, passamos a olhar o passado com mais amor”, diz jornalista

Nos últimos anos, as ondas dos remakes se tornaram ainda mais comuns. Tramas como Pantanal, exibida originalmente pela Rede Manchete em 1990, e posteriormente pela TV Globo em 2022, se tornaram fenômenos de audiência e faturamento. Visto o sucesso, tanto as emissoras abertas quanto os streamings se preparam para fisgar o público.

Para o ano que vem, a Globo virá com a nova versão da novela “Renascer”, enquanto o HBO Max surge com “Dona Beija”, sucesso da extinta TV Manchete, protagonizada por Maitê Proença. Para Duh Secco, os remakes estão ligados a memória afetiva das pessoas. Ele afirma ainda que desde a pandemia, o público passou a olhar com mais amor para o passado.

Exibida originalmente pela Manchete em 1986, a novela Dona Beija foi protagonizada por Maitê Proença, agora em sua nova versão, a trama será interpretada por Grazi Massafera - Foto: Divulgação 

“Passamos a olhar para o passado com mais amor, talvez, para esse lugar tranquilo e seguro. Por outro lado, acredito que os produtores andam acomodados. A TV tem de dar ao público novas experiências, novas oportunidades, aquilo que ele ainda não sabe que quer”, ressaltou.

A nossa reportagem também conversou como repositor Pedro Leonardo Dutra. Conhecido como entusiasta da TV Brasileira, Pedro afirma que o saudosismo está presente em várias esferas da nossa vida, principalmente na TV. “O saudosismo sempre vai se fazer presente, porque conforme a gente vai vivendo, como as coisas vão acontecendo, muitos momentos sempre vão marcar nossa memória, né? E isso é uma memória efetiva que fica. Aí, quando a gente relembra, a gente sente saudade da época.  Sente saudade das pessoas, saudade dos programas. Então o saudosismo sempre vai se fazer presente na nossa vida. Agora trazendo isso para o meio da televisão, quem acompanha também sente isso. A gente viu isso principalmente com a apresentação do João Augusto Liberato, filho do Gugu. Então, quando a gente fala de saudosismo na TV, a gente fala de como que os programas antigamente tinham o poder de criar memórias e estar presente também em determinados momentos da nossa vida. Poderíamos dizer que a televisão é parte da nossa vida, uma parte importante da nossa vida”, relatou.

O repositor Pedro Leonardo Dutra se autointitula como um amante da TV e se arrisca a palpitar os bastidores do meio televisivo com seus amigos - Foto: Divulgação

Psicóloga explica o fenômeno do saudosismo:

A TRIBUNA entrevistou com a psicóloga Beatriz Catalan, especializada em cognitivo-comportamental. Ela explica que é normal sentir saudades e que isso se atrela a vínculos e relações que formamos ao longo da vida.

“É muito comum sentir saudades. Ao longo de nossas vidas vínculos e relações vão sendo formados, e quando um deles é rompido, seja por qualquer motivo. Isso significa que você não usufruirá mais dos sentimentos e emoções provocados e proporcionados por esses laços. Importante ressaltar que há diferentes tipos de lutos. Eles podem ser por mortes de pessoas queridas e animais de estimação, perda de algum membro do corpo, pessoas próximas em processo de adoecimento, término de relações amorosas e ou de amizade, à perda de um emprego.... Todos os tipos são muito complicados de serem elaborados ainda mais, quando este ocorre por perdas inesperadas, pois, não houve nenhum tempo mínimo de preparo para o rompimento dessa relação”, afirmou.

A psicóloga Beatriz Catalan atende diversos públicos como jovens, adultos e idosos por meio da abordagem cognitiva-comportamental - Foto: Divulgação

A profissional ressalta ainda que o período da pandemia foi crucial para que as pessoas pudessem sentir saudades.

“Na pandemia, infelizmente, as pessoas puderam acessar vários lutos. Tanto de pessoas que faleceram por conta da Covid-19, quanto do seu cotidiano e sonhos que foram atravessados por uma quarentena sem perspectiva de melhora, quanto na falta das relações interpessoais e dos pequenos detalhes do dia a dia. Isso traz certa melancolia e saudades, ainda mais, por conta do momento de vulnerabilidade que todos estavam vivendo”, relata.

Durante a pandemia e com diversos campeonatos de futebol paralisados, as emissoras de TV transmitiram partidas históricas como a final da Copa do Mundo de 2002 - Foto: Divulgação

Beatriz completa dizendo que a pandemia fez com que as pessoas repensassem a importância da vida. “Ou seja, a maioria das pessoas entrou em contato com a importância das diversas relações e vínculos que constituíram para ela ser quem ela é hoje e por isso, os momentos bons de épocas passadas são tão marcantes.

Além disso, a pandemia trouxe, quase que obrigatoriamente, uma atenção para a saúde mental de uma forma ou outra que assolou praticamente toda a população mundial”, finaliza.

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