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A eternidade da Páscoa
A eternidade da Páscoa
Foto do autor Luiz Antonio Mello Luiz Antonio Mello
Por: Luiz Antonio Mello Data da Publicação: 30 de março de 2024FacebookTwitterInstagram

Na Páscoa, a ressurreição. 

Ensinou que podemos romper os grilhões do sofrimento, enxergar o cansaço como lacuna entre lutas e não derrota e fracasso.

Tudo é temporário. 

Amor, torpor, euforia, dor. 

Todos somos temporários.

A Páscoa, não.

Sentar aos pés do Cristo Redentor. Braços dados com a fé.

Respirar pureza e amor por todos os poros.

A setecentos e nove metros de altura, topo do Cristo Redentor.

A vida ruge baixo, lá embaixo, bem abaixo de linha do Equador. Parto, infância, adolescência, vida. Avista-se tudo, olho nu, nas fronteiras aéreas que demarcam a existência.

“A vida nos aprimorou na arte de nos esconder e de lançar mão disso para sobreviver. Tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas e até a velha “chapa”: há gente para quem a manchete da vida gira em torno de contar quantos exames fez. Se houvesse como fazer ressonância dos sentimentos, faria! Se houvesse como “tirar uma chapa” da alma!”- Dom José Francisco Rezende, Arcebispo de Niterói. A TRIBUNA, 27 de março de 2024.

Traço, montanha, lago, mar. Imenso, profundo, imundo mar. Norte, sul, leste, oeste, quadrantes existenciais em recorte, expostos à nitidez da baixa umidade relativa.

Gargalhadas, gritos, sussurros, de ontem, anteontem, passado, futuro. Detidos naquele amplo espaço. Soberbo e minúsculo ao pé da estátua; pulsar de cidades, fazendas, favelas, praias, até onde a vista alcança. Olho nu. Até onde a vista descansa. Tele objetivamente.

O futuro joga as cartas. Destino a leste, de onde sopra a brisa. Suave e fresca.

“Quando as pessoas não falam ou quando as palavras perderam a capacidade de dizer o que acontece, o corpo assume a dianteira e fala por si, usando a linguagem que ele conhece: a dos sintomas.

Ressonâncias, tomografias, exames, alcançam apenas o que a desordem produz no palco. O script da cena existe, mas precisa ser lido nos bastidores”. Dom José Francisco Rezende, Arcebispo de Niterói. A TRIBUNA, 27 de março de 2024.

Ao pé da estátua em pedra sabão, a mulher chora e implora sob o rosto de pedra imponente, decente, que avista adiante, olho por olho, dente por dente. Futuro. Sol, chuva, orvalho, vendaval, tempestade.

Abaixo, aviões, drones, helicópteros. O som do silêncio, o clamor abafado da angústia. Beijo na boca, bangue bangue, desespero, o cochilo do miserável sob a marquise. Sob nós, tudo aberto, tudo certo, como as veias de uma América, condenada, para sempre, Latina.

“Uma pergunta inicial corajosa e fundadora, se cala. Seria ela, o que é que anda faltando na sua vida? Perigosa e até inconveniente, eu sei. Mas, a menos que se tenha tempo e capacidade para sustentar a conversa ou o silêncio que se instalará, melhor não dizer nada.

Ei-la: Se todos precisamos de rebocos para cobrir a vida, quem sabe um deles conseguirá tratar do homem que sofre? 

E se ele não puder? 

Nesse caso, paciência! Nem todo mundo pode ver. Nem todo mundo pode ouvir. Nem todo mundo pode querer. Estamos sempre à espera de algo, mesmo quando nem sabemos direito o que é.” Dom José Francisco Rezende, Arcebispo de Niterói. A TRIBUNA, 27 de março de 2024.

Nos braços e cabeça, para-raios. Para nós e para Ele. O guardião e a força que ninguém explica, energia que sossega, aquieta, estanca o ir e ver enlouquecido das preocupações trafegando por nossas artérias e becos. O guardião para tudo.

O guardião pode tudo.

Ali perto, ou logo abaixo, ou mais adiante, ou na linha do horizonte, as árvores são devoradas para ceder espaço para o metro quadrado desonestamente caro, especulado. Inversão térmica. Inversão ética. 

O guardião sabe que o fim dessa história é o recomeço, a Páscoa.

Ação, reação. Motosserra, estiagem, seca, inversão térmica, colapso caos, morte, recomeço. Ele sabe. Calado.

Setecentos e nove metros de altura.

Páscoa, impere sobre nós.

 

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