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Os trovões da Geração Beat
Os trovões da Geração Beat
Foto do autor Luiz Antonio Mello Luiz Antonio Mello
Por: Luiz Antonio Mello Data da Publicação: 21 de outubro de 2023FacebookTwitterInstagram
Foto: Reprodução/Internet

Há um tempo, publiquei aqui o Capítulo I de “Uivo”, o manifesto seminal da geração beat, escrito por Allen Ginsberg, poeta do caos, genial para muitos, boçal para outros, que leu o poema todo (enorme, ocupa livros inteiros) numa livraria marginal de San Francisco (CA), em 1956.

Terminou a leitura e foi imediatamente preso por vários policiais que invadiram o lugar. Foi julgado e condenado por atentado violento ao pudor. 

“Não tenho pudores, o éter banha os meus delírios, a gasolina passeia em minhas veias, esse lixo penetra a América podre, tomada de bactérias e infestações sociais como vocês”, berrou para os policiais.

Todo mundo ouviu.

Ginsberg é personagem de um excelente filme de 2014, dirigido por John Krokidas, “Versos de um Crime” que assisti na Netflix.  Aborda uma outra encrenca pesada envolvendo a geração beat.

Em 1944, três expoentes da literatura beatnik, Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Lucien Carr, fabricavam ideias ditas bizarras que desafiavam o seu tempo.

O assassinato de David Kammerer, um professor apaixonado por Lucien, transformou a vida dos três, acusados de serem os responsáveis pela morte. Vale a pena ver os maçaricos do moralismo americano fritando os beats nos tribunais.

Degredados, beats não tinham família, nem ontem, nem amanhã, eventualmente havia um hoje. Por isso, quando me chamaram de beat no prefácio de um livro que lancei, calei-me.

O movimento beat sempre deixou minhas orelhas em pé, olhos arregalados sob os trovões da curiosidade. 

Não vi nada acontecer porque não era nascido. Eles se amontoaram nos anos 1940, ao som de bebop jazz (não gosto de jazz pré fusion), e acreditavam no caos como solução da miséria americana, exposta em becos, vielas, abandono, reflexos da Segunda Guerra. 

Deixaram mais do que rastros e ecos. Os beats pariram dinastias em série.

Em abril de 1951, afogado em bezendrina e café, inspirado pelo bebop jazz, Jack Kerouac escreveu a primeira versão do que viria a ser “On the Road”. 

Kerouac escrevia em prosa espontânea, como ele chamava: uma técnica parecida com a do fluxo de consciência.

Ele tinha “espasmos” e saia escrevendo onde desse. Trabalhava num escritório de burgueses em Manhattan e tarde da noite invadiu o escritório para beber e se drogar. Bateu o “espasmo”. 

Escreveu “On The Road” em bobinas de telex.

De acordo com o amigo Caíque Fellows, "o livro foi escrito assim: o Kerouac colocou a bobina na máquina de escrever e disparou geral! Você já viu o filme "The Other One: The Long, Strange Trip of Bob Weir"? O Neal Casady morava com o Grateful Dead e contava centenas de histórias sobre o Jack Kerouac, inclusive essa." 
Obrigado, Caíque!

O livro foi rejeitado por diversas editoras, mas, em 1957, “On the Road” foi finalmente publicado, após inúmeras alterações exigidas pelos editores. 

O livro, de inspiração autobiográfica, descreve as viagens através dos Estados Unidos e México de Sal Paradise (codinome de Jack Kerouac) e Dean Moriarty (pseudônimo de Neal Cassady).

A obra rendeu um excelente filme de Walter Salles, de 2012, chamado “Na Estrada”.

Ao cruzar os Estados Unidos de carro, Sal Paradise e Dean Moriarty empreenderam a viagem que muitos jovens do pós-guerra sonharam em fazer, repleta de sexo, drogas, álcool e, acima de tudo, delírios.

Ao contar a história de como os dois amigos atravessaram os Estados Unidos, em inúmeras idas e vindas que incluíram uma incursão ao México, Kerouac inaugurou um novo tipo de prosa que funciona como uma trilha sonora interna ao livro, que vai se desprendendo das palavras, das frases, dos blocos de texto, e despedaça dentro do leitor. 

Essa escrita que tem o ritmo das ruas, estradas, becos e guetos, funde a realidade ao sonho, transformando o que era uma viagem em uma busca espiritual.

Sem limites, sem fronteiras, bebendo tudo, injetando tudo, rolando em qualquer cama com qualquer um eles conseguiram mostrar a América que havia algo muito errado no planeta: a própria América.

Uns morreram, vários enlouqueceram, alguns desapareceram nos desertos mexicanos e existenciais.

Jack Kerouac morreu aos 47 anos de cirrose, em 1969. Neil Cassidy morreu aos 42, aparentando 70, falando sozinho, batendo papo com seus delírios e miragens.

Em fevereiro de 1968, ainda no México, Neal foi a um casamento e depois teve a ideia de voltar andando 30 quilômetros de San Miguel a Celaya, para buscar uma certa “bolsa mágica”. 

Achou que seria interessante saber a quantidade de dormentes de trilhos que havia entre as duas cidades.

Estava chovendo e fazendo muito frio, Neal usava apenas uma camisa e uma calça jeans. Havia consumido uma grande quantidade de álcool e secobarbital. 

Na manhã seguinte um grupo de índios o encontrou deitado perto dos trilhos, em coma, a quase dois quilômetros de San Miguel.

Foi levado para o hospital onde morreu quatro dias depois do seu aniversário.
Allen Ginsberg durou bem mais.

Morreu aos 70 anos, em 1991, depois de ter publicado 23 livros radicalmente malditos que o consagraram dentro da vanguarda como um dos maiores escritores da outra América do Norte. Sua obra foi traduzida para o mundo todo.

O rastro beat acabou desaguando no movimento hippie, bem menos alucinado intelectualmente, mas também disposto a quebrar em vários pedaços a espinha dorsal da moral e bons costumes dos Estados Unidos.

A música dos hippies foi o rock engajado, as drogas maconha, haxixe, LSD, anfetaminas e profusão além, é claro, a presença obrigatória do álcool.

O nudismo, o sexo livre, poligamia ilimitada empenaram a cabeça cartesiana da sociedade americana. 

O apogeu foi o vendido (sejamos francos) festival de Woodstock, realizado entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969 na fazenda de 600 acres de Max Yasgur na cidade de Bethel, no estado de Nova York, transformado no maior protesto contra a insana guerra do Vietnã.

Quinhentas mil pessoas se reuniram para protestar pacificamente, ouvir música, fazer sexo, se drogar, beber e acreditar que o ser humano até que não era tão imperfeito assim. 

Erro.

Em dezembro do mesmo ano, um outro festival realizado pelos Rolling Stones, em Altamont (São Francisco), charco de violência, sepultou o movimento hippie. Sem lápide.   

Post Scriptum -  Me comoveu o texto com a linda foto onde você e seu irmão aparecem de mãos dadas. Num olhar pelas fotografias do passado é que notamos o quanto a vida é fugaz. O tempo passa rápido e olhando esses registros vem a lembrança de pessoas, dos cheiros, cores, sensações e com certeza as reflexões. Uma delas é sobre a idade cronológica que parece não corresponder a percepção que tenho de mim. Quantos anos eu tenho? Me pergunto. Porque dentro de mim ainda pulsa uma menina, uma adolescente, jovem que fui, contida, agora num corpo diferente e com um rosto que as vezes desconheço. E é aí que eu deparo com a saudade de tudo e de todos que passaram pelo meu caminho até aqui. É uma saudade boa. Mas devo confessar que há tristeza também. Um misto de sentimentos que me faz reconhecer que há ainda muita vida dentro de mim! Tenho um caminho a seguir trazendo na memória todas as coisas que me transformaram na mulher que sou. Sou só gratidão. E você também. Eu bem sei da beleza e da força dessa história que você vem escrevendo! Sigamos para um próximo capítulo com muita fé e a certeza que ainda temos muito a fazer e doar. Beijo no coração

Post Scriptum 2 - “O Brasil é um anão diplomático”. Porta-voz do ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, 20/07/2014.

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