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Dia Mundial de Luta Contra a AIDS é marcado por combate ao preconceito
Mesmo após avanços significativos no tratamento, pessoas com o HIV ainda sofrem com a discriminação
Dia Mundial de Luta Contra a AIDS é marcado por combate ao preconceito
Luan Sanchez
Por: Luan Sanchez Data da Publicação: 01 de dezembro de 2023FacebookTwitterInstagram
Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Nesta sexta-feira (01), é celebrado o Dia Mundial de Luta contra a Aids. Instituído em 1988, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ele é um marco na conscientização, na prevenção e no acolhimento. Durante o Dezembro Vermelho, diversas ações são feitas, com foco no combate ao HIV.

Atualmente, segundo o Ministério da Saúde, quase um milhão e cem mil pessoas vivem com o vírus no Brasil. São pouco mais de 700 mil homens e quase 400 mil mulheres.

O primeiro caso oficial de uma pessoa vivendo com o HIV, no Brasil, foi registrado em São Paulo, em 1980. Mais de 43 anos depois, os portadores do vírus ainda sofrem com a discriminação. 

Mesmo que não sejam expulsas de casa ou excluídas do âmbito familiar, muitas pessoas ainda passam por constrangimentos, olhares tortos e situações desagradáveis, de não serem abraçadas, terem que ficar distanciadas, comer com talheres exclusivos ou usarem roupas de banho e de cama exclusivas.

A Tribuna conversou com Felipe Kaezer dos Santos, professor de Enfermagem da UERJ, que trabalha com pesquisas e atividades de extensão, com vistas ao cuidado das pessoas que vivem com HIV. Ele destacou que a luta tem que ser contra o vírus, não contra as pessoas que vivem com ele no organismo.

“A gente comemora a data. É um mês de incentivo, destinado à luta contra o HIV. Essa luta precisa ser contra o vírus e não contra as pessoas que vivem com ele. As pessoas que vivem com HIV precisam ser identificadas, faladas, acolhidas e tratadas. Elas precisam ser incentivadas, motivadas para o tratamento. Infelizmente, muitas pessoas acabam abandonando ou nem iniciando o tratamento. Tudo isso por medo do preconceito, do estigma, da discriminação. Então, isso acaba impactando de forma direta na saúde dessas pessoas. Ao mesmo tempo em que aprendemos como controlar o HIV, ainda não aprendemos como diminuir o estigma e o preconceito, como acolher e incentivar essas pessoas”.

Incentivo ao combate ao HIV é fundamental (Foto: Vinicius Marinho/Fiocruz)

Qual a diferença entre HIV e AIDS?

Felipe também explicou que uma confusão comum é sobre a diferença entre o HIV e a AIDS.

“O HIV é o vírus. É a sigla em inglês para vírus da imunodeficiência humana. Quando ele penetra no organismo, ele começa a invadir as células, se multiplica e, progressivamente, a pessoa pode desenvolver isso a longo prazo. Ela pode desenvolver um quadro de imunossupressão severa, onde ocorrem manifestações das infecções oportunistas. Esse quadro, que constitui uma síndrome, é chamado de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, que é o que a gente chama de AIDS. Então, a AIDS é um conjunto de manifestações dos sintomas, decorrentes da infecção pelo HIV”.

O professor também alertou para a necessidade dos testes, principalmente após a exposição à uma situação de risco, ou caso haja sintomas persistentes. Ele lembrou que os sintomas da infecção pelo HIV podem se parecer com os de uma simples gripe.

“Os sintomas da infecção pelo HIV são muito variados. Eles podem começar com uma febre baixa, um mal-estar. Geralmente, numa infecção mais aguda, quando o HIV acaba de penetrar no organismo, a pessoa tem sintomas que são compatíveis com uma virose. Após uma semana, 30 dias, esse quadro mais agudo tende a passar. Se a pessoa não descobrir, não fizer o teste do HIV, ele vai comprometendo cada vez mais a imunidade. E aí, a situação vai se agravando. Uma das doenças que se aproveita muito da supressão provocada pelo HIV é a tuberculose, que é uma doença respiratória, e ela pode se manifestar de forma grave, dependendo da condição de imunidade do paciente. Geralmente, em quadros mais avançados, a pessoa tem diarreia persistente, tem perda de peso, pode ter lesões de pele, pode ter a visão comprometida, mas isso em casos muito avançados. O ideal é que as pessoas possam realizar o teste. A gente sempre fala do teste, porque a testagem é muito importante. É ela que permite o tratamento e o diagnóstico precoces. O teste impede, justamente, que a pessoa desenvolva esse quadro de supressão avançada, que a gente chama de AIDS”.

Testagem em casos de dúvida é crucial (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Tratamento 

No boom da pandemia da AIDS, nas décadas de 1980 e 1990, muitos medicamentos surgiram como forma de tratamento. O famoso coquetel, no entanto, trazia muitos efeitos colaterais, como problemas nos rins e nos ossos. 

Atualmente, muitos desses remédios estão fora de circulação, justamente pelos prejuízos trazidos. De responsabilidade total do Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento de pessoas vivendo com o HIV se tornou mais simples, eficaz e nada agressivo.

“É impressionante como os tratamentos melhoraram muito ao longo dos anos. O início da pandemia do HIV no Brasil tem pouco mais de 40 anos. E de lá para cá, o tratamento melhorou muito. Este ano, tivemos uma novidade bastante interessante, porque o tratamento do HIV, até então, era realizado com pelo menos três substâncias em comprimidos, juntos ou separados, mas pelo menos três. Em alguns casos, quatro ou cinco. Este ano, pela primeira vez no mundo, temos a possibilidade de tratar as pessoas que vivem com HIV, com um comprimido que reúne apenas duas substâncias (...) É um tratamento muito bom, muito seguro e muito eficaz para controlar o HIV. Ele está disponível amplamente no SUS e, inclusive, não se compra em farmácias privadas”.

Com a medicação sendo ministrada da forma correta, o paciente vive uma vida normal, com uma carga viral imperceptível.

“A pessoa, na verdade, quando faz o tratamento, consegue suprimir a carga viral a um nível tão baixo, mas tão baixo, que ela sequer é capaz de transmitir o HIV através da relação sexual. É praticamente como se ela não tivesse o HIV no organismo, porque a quantidade de carga viral é tão ínfima e tão minúscula, que ela não tem nenhum efeito no organismo”, destacou o infectologista.

Preservativos são a melhor forma de prevenção (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Cuidados

O principal jeito de se prevenir segue sendo o uso de preservativos. Com uma eficácia de quase 100%, eles são uma barreira não só contra o HIV, mas contra as outras infecções sexualmente transmissíveis. Algumas, inclusive, têm vacina fornecida pelo SUS.

“O preservativo foi uma das únicas formas que a gente tinha de prevenir o HIV. Hoje em dia, o Ministério da Saúde tem uma mandala da prevenção. Além dos preservativos masculino e feminino, há a vacinação contra as hepatites, o HPV e a herpes. O tratamento das infecções sexualmente transmissíveis compõe um conjunto de estratégias de prevenção do HIV, já que muitas dessas doenças acabam criando portas de entrada no organismo. A sífilis, por exemplo, faz uma lesão na genitália”, ressaltou o professor.

Felipe citou dois métodos pouco conhecidos, mas muito importantes no combate ao HIV. Eles permitem que pessoas que não têm o vírus possam se prevenir de contraí-lo. É o caso de pessoas que têm parceiros que vivem com o HIV, ou profissionais do sexo.

PEP (Profilaxia Pós-Exposição) - é recomendada após uma exposição de risco, como uma relação sexual desprotegida, um acidente com uma agulha que foi utilizada numa pessoa. Esse indivíduo pode procurar o SUS para ser avaliado. Geralmente, essa avaliação é feita numa emergência, numa UPA que tenha emergência, num hospital que tem uma emergência aberta. Então, a pessoa pode usar essa medicação para impedir que o HIV se instale no organismo dela. 

PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) - é um medicamento no caso de uma exposição futura. Se a PEP protege de uma exposição que já aconteceu, a PrEP vai proteger de uma exposição que ainda acontecerá. Ela é utilizada para pessoas que têm dificuldade de utilizar preservativo e para pessoas que têm exposição desprotegida de forma seguida. E isso inclui profissionais do sexo, inclui homens que fazem sexo com homens, casais heterossexuais, pessoas que têm relação heterossexual, mulheres trans. É uma estratégia que também está sendo ampliada no SUS. A pessoa faz um acompanhamento com um profissional de saúde, monitora os exames, faz o acompanhamento para avaliação do uso regular da medicação e usa essa medicação de forma sistemática para se proteger.

Entretanto, o outro lado da moeda também se faz presente. Mesmo com um tratamento que é referência mundial, no combate ao HIV, o Brasil apresentou, em 2022, um aumento nos casos de outras ISTs, principalmente a sífilis. A prevenção tem que ser constante.

Tratamento contra o HIV é feito pelo SUS (Foto: Marcello Casal/Agência Brasil)

Desmistificando rumores

Desde a década de 1980, muitas histórias surgiram sobre as formas de contágio do HIV. O principal meio é através do sangue, seja por relação sexual, seja por compartilhamento de agulhas. Felipe deu um panorama, desmistificando, por exemplo, se há transmissão pelo beijo ou por um simples abraço.

“A transmissão pelo beijo é praticamente desprezível, porque a nossa saliva, por si só, já é capaz de eliminar o vírus. Nosso sistema imunológico é capaz de eliminar o vírus no sistema digestivo. A transmissão, de fato, pode ocorrer através da mucosa da boca, se ela tiver alguma ferida. Mas a transmissão por via oral, no adulto, é muito rara. A pessoa que vive com HIV tem dificuldade de lidar com familiares, com amigos, e há até pessoas que separam talheres. Tem pessoas que não querem usar o mesmo assento no banheiro, que não abraçam seus familiares com medo de transmitir o HIV através do contato. E na verdade, o que a gente sabe é que a transmissão do HIV é através da relação sexual desprotegida, através do compartilhamento de agulhas”.

Outra forma de transmissão é da mãe para o filho, a chamada transmissão vertical, seja durante a gestação ou durante a amamentação. Felizmente, com os avanços na saúde, mães que vivem com o HIV têm chances mínimas de passarem o vírus para seus filhos, antes e após o parto.

Porém, por terem acabado de nascer e não possuírem um sistema imunológico plenamente formado, os bebês podem acabar contraindo o vírus, através da amamentação. O infectologista conclui recomendando que as mães com o HIV não amamentem os filhos. Justamente por isso, o SUS faz um acompanhamento e fornece a fórmula, para o pleno crescimento dos bebês.

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